COISA DE CRIANÇA
Por onde Jesus passava era possível ver crianças correndo em volta e se
misturando na multidão. Os discípulos tentaram impedir que as crianças
se amontoassem no colo de Jesus. Achavam que Jesus tinha coisa mais
importante para fazer do que dar atenção às crianças, mas acabaram
descobrindo que não apenas as crianças gostavam de Jesus, mas Jesus
também gostava das crianças. Numa dessas ocasiões, Jesus pegou uma
criança no colo e deixou muito claro que quem não se torna igual a uma
criança não pode entrar no reino dos céus, pois o reino dos céus
pertence aos que são semelhantes às crianças. Naquele dia as crianças se
tornaram um padrão para a espiritualidade cristã.
Evidentemente,
Jesus não pretendia que nos tornássemos iguais às crianças em todas as
dimensões da infância. As crianças, por exemplo, não sabem o que é a
gratidão, pois não têm noções de medidas abstratas. Não têm condições de
avaliar o que é feito em favor delas, não sabem quanto sacrifício é
necessário para que sejam cuidadas e não têm critérios para os custos da
dedicação dos pais ou o valor das coisas que são oferecidas a elas. Por
isso é que os pais vivem dizendo “diz obrigado para a titia”, “já disse
obrigado para o vovô?”, pois se não o fizessem, as crianças
simplesmente pegariam o presente e sairiam correndo para brincar. As
crianças também não têm noções de tempo, distância e volume. Por isso é
que usam palitos de fósforo para marcar quantos dias faltam para o
passeio no zoológico, numa viagem longa perguntam de cinco em cinco
minutos se está chegando, e de noite, antes de irem para a cama, abrem
os braços e dizem com aquele sorriso lindo “mamãe, eu te amo desse
tamanho assim”.
As crianças também estão absolutamente fora das
categorias sociais de valores e importância. Tratam o síndico com a
mesma displicência com que tratam o zelador do prédio onde moram, e
falam as maiores barbaridades quando percebem algo inusitado em algum
adulto que encontram no elevador, deixando os pais ruborizados e
constrangidos. Elas não sabem quem é importante e quem não é. Elas ainda
não foram contaminadas com os paradigmas do mercado, que valora pessoas
de acordo com posição social, conta bancária, ou potencial de
favorecimento e trocas de favores. Não fazem a menor ideia, por exemplo,
de que é preciso um sorriso de plástico para o senhorio que chegou para
tratar do aumento do aluguel, ou demonstrar especial apreço ao chefe
que veio para o jantar. Isso significa que uma criança jamais
perguntaria para Jesus “quem é o mais importante no reino dos céus?”,
pois não lhes passa pela cabeça que um ser humano pode ser maior ou
menor do que o outro em termos de valor intrínseco – aliás, nem imaginam
que exista ou o que seja esse tal de “valor intrínseco”.
A
exortação de Jesus aos seus discípulos sublinha exatamente esses traços
próprios das crianças: o absoluto despojamento das disputas de poder e a
absoluta ignorância a respeito das hierarquias que separam os seres
humanos uns dos outros, e promovem toda sorte de guerras e conflitos,
que somente se justificam pela vaidade e o orgulho dos egos que
pretendem se afirmar às custas da diminuição e destruição dos demais.
Como seria o mundo se todos tivessemos o coração das crianças? Teríamos
breves desentendimentos, logo seguidos de um enxugar de lágrimas e a
correria reiniciada rumo à próxima brincadeira. Haveria mais cooperação e
menos competição, mais perdão e menos ressentimento e ódio, mais
partilha e menos acúmulo, mais brincadeira e menos agressões, mais
amores e menores dores. O rabino Harold Kushner disse que as crianças
perdoam rápido, e se reconciliam na velocidade da luz, pois “preferem
ser felizes a ter razão”. São simples, e humildes, não se constrangem
com vitórias e derrotas, pois não competem, apenas brincam. Não estão no
jogo de “quem é o maior e quem é o menor”.
O reino de Deus é um reino para gente com coração de criança. Todo mundo brincando de roda, cada um segurando na mão do outro.
( Ed René Kivitz)

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