Alguns
anos atrás fui pautado para escrever uma reportagem que, de início,
julguei bem simples, mas que antes de me sentar ao computador e digitar
as primeiras teclas, já estava completamente tomado pela tristeza dos
fatos que havia presenciado horas antes. E em todos os meus anos como
jornalista, essa foi uma das matérias mais tristes que escrevi.
Por conta do dia primeiro de outubro – Dia Internacional do Idoso,
instituído pela Organização das Nações Unidas – fui visitar algumas
instituições e abrigos que cuidam de pessoas com mais de 60 anos. No fim
do dia, entreguei ao meu editor uma reportagem sobre o cruel abandono
das famílias, mas o que eu nunca consegui passar para o papel foi relato
da dor de quem ainda vive, mas deixou de existir.
É importante ficar claro, aqui, que não fui atrás de nenhuma grande
denúncia de maus tratos ou de instituições que deixam idosos sem comida
ou higiene. Não, pelo contrário, fui a locais onde todos são bem
cuidados. Mas o que percebi foi a falta de brilho nos olhos daqueles
esquecidos pela família, o sorriso usado como uma máscara para proteger o
coração despedaçado de quem não recebia uma visita há mais de um ano.
Em uma de minhas visitas, estava caminhando por entre corredores onde
ficavam os quartos até que minha atenção foi capturada por um cântico
baixinho que vinha de uma porta aberta. Lá dentro, uma senhora sentada
na cama, olhava para fora da janela que dava para o bonito jardim do
local. Ela cantava para si mesma uma música bonita que eu nunca soube
qual era. Seu olhar perdido se transformou assim que ela me viu. Suas
feições mudaram completamente para um sorriso sincero e surpreso. Ela me
chamou por um nome estranho do qual não lembro mais, mas a cena que
ocorreu talvez eu nunca esqueça na vida.
Eu estava prestes a falar que ela se confundira, mas as palavras que
saíram daquela boca sorridente me fizeram gelar a alma. Fitando meus
olhos, a magra senhora me disse: “Eu sabia que você viria. Eu não
acreditei quando os outros disseram que você nunca mais voltaria aqui.
Mas você veio, meu filho, você veio me ver. Obrigado”. Meu coração parou
por alguns segundos. Então, só consegui dar um abraço naquela mulher de
corpo frágil e aparência senil. Ela me contou algumas histórias de sua
vida no asilo e me pediu para lhe escovar os cabelos antes de ir
embora.
Mais tarde, a enfermeira me explicou que o filho daquela senhora a
deixou por lá cerca de cinco anos antes prometendo voltar. Ele só a
visitou uma vez naquele mesmo ano e nunca retornou.
Para quem pode ter menos compreensão, como crianças e idosos, a condição de abandono é, também, uma situação de sofrimento desmedido. A pessoa abandonada pode não saber os motivos que levaram ao afastamento, e isso gera um sentimento de angústia por um retorno que talvez nunca aconteça. Em idosos, esse sentimento se reflete de forma ainda mais avassaladora.
Para quem pode ter menos compreensão, como crianças e idosos, a condição de abandono é, também, uma situação de sofrimento desmedido. A pessoa abandonada pode não saber os motivos que levaram ao afastamento, e isso gera um sentimento de angústia por um retorno que talvez nunca aconteça. Em idosos, esse sentimento se reflete de forma ainda mais avassaladora.
De acordo com o Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por
Suicídio no Brasil, publicado pelo Ministério da Saúde em 2017, o maior
alerta foi a taxa de suicídio entre idosos com mais de 70 anos: foram
registradas média de oito mortes para cada 100 mil pessoas entre 2011 e a
data de publicação desse documento. Entre os principais os fatores que
levaram a medidas extremas, foram apontados transtornos mentais como a
depressão e o isolamento social.
Desde aquela época, fico pensando no que estamos fazendo com os
idosos que estão em nossa vida. Eu tenho avós. Eles são muito ativos e
vivem juntos, e mesmo assim estão sempre com a família por perto e
recebem visitas frequentemente. Eu mesmo estou quase todos os finais
de semana na casa deles. Eu os amo e nunca vou abandoná-los.
Espero que você, ouvinte, pense nisso, pois um dia todos seremos idosos.
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